Regulamentar a prática da maquiagem como ofício evitaria a banalização da profissão? Declarar guerra aos cursos online reduziria a entrada de novos maquiadores no mercado? Reflita com a gente sobre alguns dos temas mais debatidos na busca de um mercado mais justo e ético

Por Emilia Brito

Não é de hoje que acontece o debate sobre como tornar o mercado de trabalho dos maquiadores mais justo, menos banalizado e mais protegido.

As discussões, sempre acaloradas, até agora não geraram muito resultado. Talvez porque estejam deixando de lado um pouco de argumentação racional, de lógica e de autocrítica.

Regulamentação e exigência de ‘diploma’ são a tábua de salvação que muitos imaginam?

Não. Um exemplo: segundo a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), atualmente, o país tem cerca de 1,1 milhão de advogados, 1.210 cursos de Direito e mais de 900 mil estudantes da disciplina.

Concorrido, né? Mesmo precisando de formação acadêmica e sendo uma profissão regulamentada.

Nos últimos dez anos, foram abertos mais de 11 mil escritórios de advocacia só em São Paulo. No mesmo período, mais de 30% fechou.

Os motivos, segundo os próprios advogados: falta de clientes, competitividade com outros profissionais do Direito e desvalorização da profissão, o que inclui a prática de honorários depreciativos dentro da própria classe.

Mas ninguém se forma em Direito fazendo ‘cursinho online’, né?

Por enquanto. O Ministério da Educação e Cultura (MEC) já declarou que pretende ampliar a oferta de ensino à distância (EaD) de graduação e pós-graduação. O objetivo é fazer com que o ensino superior esteja ao alcance de mais pessoas.

Atualmente, mais de 1,3 milhão de estudantes estão matriculados em cursos EaD em todo o Brasil e algumas opções chegam a ser surpreendentes.

O MEC já aprova EaD para formação em áreas como Estética e Cosmética, Enfermagem, Farmácia, Gestão Hospitalar, Biomedicina, Fisioterapia, Fonoaudiologia e Nutrição (em alguns casos, somente 40% da carga horária pode ser feita pela Internet).

Regulamentar cursos garante qualidade de ensino?

Não exatamente. Dos 115 cursos de tecnólogo em Estética e Cosmética avaliados pelo MEC, apenas cinco atingiram nota máxima do Conceito Preliminar de Curso (CPC) – as notas vão de 0 à 5, sendo cinco a nota mais alta. Estes são dados da avaliação mais recente, feita em 2016 e atualizada em 2018.

O CPC é um dos indicadores de qualidade dos cursos superiores no Brasil e é considerado o mais completo, pois, além do desempenho dos estudantes, considera elementos como qualidade do corpo docente, infraestrutura e recursos didático-pedagógicos.

Se impor regras ao ensino garantisse qualidade, o país não teria tanta escola e faculdade chinfrins.

Mas, claro, é preciso estabelecer normas mínimas. Se todo curso de maquiagem – online, presencial, na Lua ou em Marte – fosse obrigado a ensinar boas práticas de higiene, já seria bem maravilhoso.

Maquiador que ‘se forma’ em curso online não tem credibilidade?

Por que não? Pode ser que o próximo Peter Philips seja alguém ‘formado’ por um curso online, ué!

Se a gente analisar bem friamente – e honestamente –, na verdade, é impossível ensinar uma pessoa a ser um ‘bom maquiador’.

Cursos (sejam eles pela Internet ou presenciais) dão ferramentas de desenvolvimento, de aprimoramento, de especialização. Mas não são capazes de injetar no aluno o que, de fato, vai fazer com que ele seja um maquiador profissional incrível, que é o talento.

Talento é uma capacidade natural, instintiva, inata. Desenvolvê-la para atingir excelência é uma questão de treino, estudo, dedicação e perseverança. Um ‘cursinho online’ pode ser o primeiro passo ou um dos muitos passos dessa caminhada.

Peter Philips é maquiador e diretor de Criação e Imagem da Dior. Vídeo: @peterphilipsmakeup

Não dá pra colocar a ‘culpa’ no canal em que o curso é oferecido. A questão é outra e está na qualidade do conteúdo e na autoridade de quem está dando a aula.

Tem curso online do Diego Américo e tem curso online da Ana Paula Marçal. Tem gente que acha que é mais valioso aprender com o Diego, tem gente que vai preferir a Ana Paula e tem gente que vai fazer os dois cursos.

Achar que quem fez aula no Senac, na Escola Madre, na Embelleze ou em qualquer outra escola presencial vai ser um maquiador superior a quem fez curso online é presunçoso.

Até porque muitos maquiadores brilhantes não fizeram curso nenhum. São autodidatas que se desenvolveram de maneira empírica, tipo… A Pat McGrath, que nunca frequentou uma aula de maquiagem.

Além disso, como o exemplo dos advogados mostra, a exigência do ensino presencial não vai impedir a entrada de novos maquiadores no mercado, nem garantir a prática ética do ofício.

A única coisa que poderia acontecer é o aumento de escolas de maquiagem – boas, ruins, ótimas, péssimas, caras e baratas.

Val Garland oferece curso online. O de maquiagem tem tutores como Tom Pecheux, Patti Dubroff e Alex Box. Na imagem, é ela maquiando Kate Moss para um desfile de Alexander McQueen. Foto: @thevalgarland

Mas, como dizia Sartre, ‘o inferno são os outros’. Tudo que está errado, está no outro, é por causa do outro.

E assim, olhando sempre pra fora, a gente se esquece de exercitar a autocrítica.

Por que sabe aquela cliente que preferiu fechar com aquele outro maquiador que não investe tanto quanto você, tem menos experiência e é mais barato?

Então… Para o taxista, você é essa cliente toda vez que escolhe ir de Uber.

Para escrever este texto, contei com a valiosa colaboração de Cadu Lemos.

Cadu foi diretor de grandes grupos de comunicação e propaganda, diretor de marketing no varejo do Banco Nacional e, desde 1998, atua como consultor e palestrante internacional na área de desenvolvimento humano e equipes de alta performance.

www.cadulemos.com.br