Conheça trajetória de Dorothy Ponedel, a mulher que enfrentou o machismo de Hollywood para ser a primeira maquiadora do cinema norte-americano

Por Emilia Brito

O período entre 1910 e 1950 foi um dos mais importantes na história da maquiagem. As produções do cinema cresceram espantosamente, Hollywood se estabeleceu como meca do segmento e as atrizes ditavam o que era moda.

Quando se fala sobre este período, é impossível não citar Max Factor e tudo que ele fez para ser considerado o pai da maquiagem moderna.

Porém, Hollywood tinha muitos outros célebres maquiadores, alguns tão importantes quanto Max Factor.

No meio do grupo, havia uma pessoa que a história resolveu quase que ignorar: a maquiadora Dorothy Ponedel.

Ela enfrentou o preconceito de um segmento dominado por homens determinados a não dividir a fama com uma mulher, espalhando rumores de que Dorothy  era lésbica e alcóolatra, entre outras artimanhas para tentar impedi-la de trabalhar como maquiadora.

Durante um bom tempo, Dorothy foi recusada pelo Sindicato de Maquiadores e Cabeleireiros de Los Angeles simplesmente por ser mulher.

Uma das diversas cartas de Dorothy Ponedel ao Sindicato, solicitando ser aceita pela instituição.

Mas, em Hollywood, um grupo de mulheres tinha muito poder: as atrizes.

Foram elas que deram à Dorothy não só a chance de uma carreira brilhante como, também, a posição de primeira maquiadora a ser contratada por um estúdio de cinema, a Paramount.

Dorothy Ponedel chegando pra trabalhar na firrrrma (Paramount).

Dorothy Ponedel, ou apenas ‘Dot’ ou ‘Dottie’, como era chamada, mudou-se com a mãe de Chicago para Los Angeles, em 1920.

Com apenas 300 dólares na bolsa, alugou um apartamento e investiu na compra de uma franquia da então famosa rede de padarias Van de Kamp.

Certo dia, um monte de caminhões com equipamentos de filmagem estacionou em frente à loja. Um homem entrou para comprar donuts e perguntou se Dot não queria ganhar um dinheirinho extra como figurante. E foi assim que ela ingressou na indústria do cinema.

Durante quase oito anos, Dottie trabalhou como figurante e dançarina, enquanto a mãe cuidava da pequena padaria.

Uma das atuações de Dorothy foi como o garoto indígena ‘Little Wolf’, no filme ‘Galloping Vengeance’ (1925). Se, hoje, Hollywood é cheia de personagens estereotipados, naquela época conseguia ser ainda pior.

Num belo dia, ouvindo o cinegrafista brigar com o maquiador de Nancy Carroll, Dot se meteu na conversa e deu uma sugestão de como melhorar a maquiagem da atriz.

Nancy escutou e pediu que Dorothy a maquiasse.

Resultado? Dottie arrasou e a atriz queria que ela voltasse no dia seguinte. Mas o diretor não deixou porque ter uma mulher na maquiagem era algo impensável naquela época.

Nancy, então, disse que se encarregaria de fazer a própria maquiagem. Porém, fez tudo errado de propósito e o estúdio não teve outra saída a não ser chamar Dottie de volta.

Nancy Carrol no filme ‘Follow Thru’ (1930), o primeiro trabalho de Dorothy Ponedel como maquiadora da Paramount.

Para aprimorar as habilidades como maquiadora, Dot passava horas em livrarias e bibliotecas estudando livros de arte.

O pintor holandês Rembrandt era um dos artistas que ela mais estudava, analisando como ele usava luz e sombra para criar dimensão e volume principalmente ao rosto.

O trabalho de Dorothy com Nancy Carroll chamou a atenção de Hollywood.

O diretor Josef von Sternberg perguntou quem tinha feito a maquiagem de Nancy em Follow Thru. Ele queria a mesma pessoa para um teste de maquiagem em Marlene Dietrich.

Teste feito, Dottie contratada para o primeiro de muitos filmes que fez com a atriz, que passou a exigi-la em todos os trabalhos. Dietrich, a estrela mais poderosa da Paramount na época, foi a grande responsável por fazer o estúdio contratar Ponedel como maquiadora.

A maquiagem de Dorothy para a Dietrich levava em consideração o tipo de luz que virou marca registrada de Josef von Sternberg como diretor. Influenciado pelo expressionismo alemão, Sternberg era mestre em chiaroscuro (contraste entre luz e sombra).

Dot colocou em prática tudo que estudou sobre contraste entre claro e escuro nos livros de arte.

Afinou ainda mais a sobrancelha, acentuou as maçãs do rosto, deu mais dimensão ao nariz, aumentou os olhos (note o branco na linha d’água).

O toque final era dado com um blush molhado, aplicado com os dedos em locais estratégicos do rosto.

Marlene Dietrich demandava boa parte do tempo de Dorothy, mas ela também trabalhou com outras grandes divas, como Mae West e a estonteante Carole Lombard.

Mae West

Carole Lombard

Depois de 10 anos na Paramount, Ponedel foi contratada pela MGM. Começava, então, a longa história de parceria profissional e de amizade entre ela e uma das maiores estrelas que Hollywood já teve: Judy Garland.

Judy Garland era uma das estrelas mais lucrativas da época, mas era considerada um ‘patinho feio’. Louis B. Mayer, um dos donos da MGM, se referia a ela como ‘pequena corcunda’.

A primeira providência de Dottie foi aposentar os ‘apetrechos’ que os executivos do cinema obrigavam Garland a usar: preenchimento de borracha para empinar o nariz e capa nos dentes.

Dorothy trabalhou a beleza natural que via em Judy, que dizia que Dot não apenas sofisticou a imagem como, também, devolveu a ela um pouco de autoestima.

Dottie era como uma mãe para Judy. A forte relação entre as duas durou até a morte da atriz e ocupa grande parte do livro ‘About Face: The Life and Times of Dottie Ponedel, Make-Up Artist to the Stars’, em que Dottie conta a própria trajetória em Hollywood.

Ela dedica o livro à todas as mulheres maquiadoras que lutaram e às que continuam lutando para quebrar o telhado de vidro da indústria do cinema.