Jessica Lange como Fiona Goode, em American Horror Story.

Pegar um trabalho que você não sabe fazer não é ‘coragem de encarar desafios’. É correr o risco de enterrar a sua reputação e de jogar todo o mercado na mesma cova

Por: Mari Figueiredo

Sempre sou abordada por algum maquiador desesperado que precisa gravar, no dia seguinte, um efeito que nunca fez na vida.

As pessoas prometem pro cliente que vão entregar um trabalho que não sabem nem por onde começar e, depois, esperam que os outros ajudem a resolver o problema. Oi?

Eu fico me perguntando: se não sabe fazer, por que pegou o ‘job’ e disse pro cliente que faria?

Não tenho má vontade em ensinar, pelo contrário. Dou workshops quando tenho tempo e acredito fortemente que quanto mais profissionais capacitados o mercado tiver, mais as produtoras podem criar projetos que tenham maquiagem de efeitos especiais. E isso gera mais oportunidade de trabalho pra todo mundo.

Eu sempre discuto detalhe por detalhe do projeto para ter certeza que entendi o que o cliente quer (porque é cada papo confuso…) e garantir que eu sou a pessoa certa para realizá-lo.

Amo quando vem ideias grandiosas, cheias de efeitos que sempre tive vontade de fazer. Mas, no mínimo, sei qual material usar? Se não sei, tenho tempo de pesquisar alternativas e fazer testes para apresentar para o cliente?

Sim, eu consulto outros profissionais. Mas eu não ligo pra pessoa esperando um curso-rápido-de-maquiagem-de-efeitos-especiais-nível-básico-menos-zero.

Na boa, antes de se comprometer a fazer uma coisa que você não sabe, que tal refletir? Pergunte-se…

Eu tenho material?

Kit de trabalho pra maquiagem artística, de beleza, social, moda etc, não tem tudo que você precisa para pegar um projeto de efeitos especiais.

E, acredite: você não vai encontrar tudo na primeira loja de cosméticos que entrar.

Eu sei quanto custa?

Quem não sabe o material que vai usar e nem fez pesquisas ou testes pra descobrir, não sabe quanto custa. Portanto, o preço da diária que você já passou pro cliente tá furado.

Pior: se você foi a opção mais barata, provavelmente, foi porque você jogou todos os preços pra baixo – tanto do seu trabalho, quanto do que você estimou gastar em material.

Eu estudei?

Fazer uma coisa muito nojenta, horrível e cheia de sangue não significa que a maquiagem esteja boa.

Quem faz efeitos especiais (e vai simular corte, ferida, hematoma, facada, tiro, porrada, tripa saindo da barriga, fratura etc etc etc) precisa entender de anatomia.

Se não, em vez de uma maquiagem realmente boa, ela é apenas muito nojenta, horrível e cheia de sangue.

Eu vou conseguir me manter?

No começo, você pode até dar uma enganadinha na galera. Mas as pessoas percebem quando a gente não sabe o que tá fazendo e a fama passa de uma equipe pra outra.

‘De repente’ ninguém te chama mais pra trabalho nenhum. E não adianta reclamar no Facebook.

Eu tenho noção de que a reputação não é só minha?

Quando todos os profissionais prezam pelo padrão de qualidade do trabalho que fazem, todos ganham mais confiança do mercado. E é isso que faz a demanda crescer e os investimentos aumentarem.

Quem faz um trabalho sujo e incompetente, além de queimar o próprio filme, desvaloriza todos os outros maquiadores que têm capacidade, talento e estão batalhando por um mercado mais profissional e de qualidade.

Se você tem, pelo menos, algumas noções básicas, defendo seu total direito de deixar claro para o cliente que você nunca fez o que está sendo pedido, entender se ele pode dar um prazo para você fazer testes e ver se ele aprova os resultados.

Caso contrário, acho que é muito mais digno você indicar outro profissional e se oferecer para ser assistente. Assim, você não fica fora do projeto e ainda aprende.

Isso se chama respeito. Pelo trabalho que leva o seu nome, pelo cliente que te contratou e pelo mercado que você está ajudando a construir.

Mari Figueiredo é maquiadora e uma das grandes referências da nova geração de profissionais de efeitos especiais. Ganhou o Prêmio Avon de Maquiagem na categoria Audiovisual em 2013 e 2016.

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