Maquiagens feitas no The Makeup Experience. Fotos: Instagram do evento

Para atender aos desejos de capacitação de quem pode pagar mais, o melhor do The Makeup Experience ficou de fora do Congresso. Sorte de quem só pagou pela Feira

Por Emilia Brito

Eu tava muito empolgada para o The Makeup Experience, afinal, era o primeiro evento que eu ia cobrir depois de retomar o SoulMake.

Mas vou ficar devendo a cobertura porque a ‘imprensa’ ficou tão distante do palco que não deu pra fazer boas fotos e vídeos.

E como não houve uma agenda organizada de momentos para entrevistar os palestrantes, não falei com nenhum.

Tinha que sair procurando pela Feira, disputar a atenção com os fãs e interromper a empolgação do entourage que acompanha os famosos pra puxar palmas e gritar ‘maravilhosaaaa’ do fundo do auditório.

Confesso que meu deu uma certa preguiça…

Talvez faça sentido não oferecer um atendimento mais estruturado à ‘imprensa’, afinal, quem precisa dela se cada participante já divulga tudo com o próprio celular?

Mas foi bacana ter ido ao The Makeup Experience. Deu pra ver mais claramente qual é o retrato da maquiagem profissional no Brasil.

Se eu tivesse que escolher uma imagem pra simbolizar esse retrato, seria a obra ‘Relativity’, de um artista que eu adoro, Maurits Cornelis Escher.

Nela, Escher mostra um mundo irreal. Escadas levam à todas as direções, pisos são paredes e vice-versa.

Tudo pode estar de cabeça pra baixo, à esquerda, à direita, pra cima, pra baixo. Não há ordem, lógica ou ponto de referência.

As figuras humanas parecem não se dar conta do caos. Ou simplesmente não se importam?

Alguns dizem que, talvez, Escher quisesse mostrar que, enquanto as pessoas tiverem o suficiente para seguir uma ‘vida normal’, elas se contentam em acompanhar o mundo distorcido em que vivem, por mais louco que ele seja.

Ninguém percebe que nada ali faz sentido e que os caminhos não levam a lugar algum. Ninguém para pra pensar.

Saí do The Makeup Experience achando que o mercado da maquiagem profissional é aquele edifício da obra de Escher. E os maquiadores são as figuras humanas que vagam pelos cômodos.

A diferença é que os maquiadores acham que sabem o que estão fazendo e para onde estão indo. Não se deram conta de que estão apenas vagando, cada um pra um lado, sem rumo.

‘O maior evento de maquiagem da América Latina’, pelo que eu vi, só tinha brasileiros mesmo.

Ainda bem! Imagina ter que traduzir tudo para o espanhol sem ter infraestrutura pra tradução simultânea?

Por falar em brasileiros, todos que deram workshop no Congresso Internacional de Maquiagem parecem ter forte presença digital, muitos seguidores, mas pouco repertório sólido de carreira.

Com exceção da Juliana Rakoza, que já fez mil coisas e foi maquiadora oficial da Maybelline no Brasil, e Lázaro Resende, que trabalhou em salão e ainda mantém uma clientela, não sei se os demais palestrantes nacionais têm alguma experiência de carreira fora do Instagram.

Até porque nem o breve currículo de cada palestrante a organização do evento colocou no site ou no material de imprensa, que, na verdade, não passava de um release que não dizia nada relevante.

Mas ter uma carreira baseada em Instagram não significa que os trabalhos sejam ruins. Alguns que vi até que estavam surpreendentemente bons!

Achei bonito o olho que Luanna Charamba fez.

E o jeito como ela andava pela Feira, gente? Parecia que tava desfilando na semana de moda de Milão na década de 1990. rs

Tá certíssima. Se eu fosse deslumbrante que nem ela, faria o mesmo.

Foto: eu mesma que fiz com meu celular que o Alcântara disse que é um dos piores pra tirar foto de maquiagem! kkkkkkkk #sinceridades

Também adorei o olho que Michelly Palma apresentou. Se bem que ela colocou dois cílios postiços que esconderam tudo!

E eu que nunca imaginei que alguém usasse DOIS cílios postiços? Vivendo e aprendendo…

Aliás, vocês já viram a Michelly pessoalmente? Parece uma princesa.

Foto: eu mesma, com meu celular gongado. Mas ele é novo, foi caríssimo e não vou comprar outro. Aceitem. #condições

No quesito ‘look geral’ (maquiagem + cabelo + figurino), meu troféu foi para Lázaro Resende porque achei que ele criou uma imagem bem elegante.

Abusado, deu conta de tacar um bocão vermelho na modelo, coisa que muito maquiador não conseguiria fazer em frente à uma plateia lotada e em tão pouco tempo.

Foto: eu mesma, celular gongado

Mas a escolha dos maquiadores que deram workshop no Congresso deixou claro que o número de seguidores vence o histórico de carreira e a bagagem de conteúdo.

Mostrou que o interesse da maioria é aprender ‘cut crease’, mas pouco importa de onde o ‘cut crease’ veio. Que a galera acha incrível maquiagem ‘artística’, mas não acha importante aprender um pouquinho sobre arte.

Tudo isso explica porque o trabalho do Anderson Bueno em Hebe – O Musical (que ganhou Prêmio Bibi Ferreira de Melhor Visagismo) foi apresentado em uma salinha no canto da Feira e não no palco principal.

Sorte de quem conseguiu lugar na salinha, né?

Também deve explicar porque o workshop da Danessa Myricks foi o mais vazio de todos.

E, provavelmente, explica como um maquiador como o Duda Molinos conseguiu circular pelo evento sem causar o mesmo furor de quando a Ve Neil anda pela IMATS.

Tive a sensação de que a maioria não fazia ideia de quem é Duda Molinos. E seria aceitável não saber, não fosse Duda o autor do livro mais importante sobre maquiagem feito no Brasil.

Da mesma maneira que os livros do Kevyn Aucoin são leituras obrigatórias para os maquiadores dos Estados Unidos, o livro do Duda é leitura obrigatória para os maquiadores brasileiros.

Outra que ficou de fora do Congresso foi Juliana Gonçalves, que deu workshops gratuitos na Feira pela Beauty4Share.

Juliana tem uma experiência enorme em maquiagem de beleza, moda e uma lista de clientes de maquiagem social que inclui Isabelli Fontana e… Paul McCartney!

Ok, o beatle ela só maquiou dessa última vez que ele veio à São Paulo. Mas a Isabelli ela maquia sempre, táááá kirida?

Ela ensinou como fazer sardas falsas e mostrou que dá pra fazer olhos coloridos com pegada fashion, sem deixar a modelo com cara de rainha da bateria porque, aí, já é outro segmento de mercado.

Mas a galera quer ver muito glitter, muito iluminador, muitas camadas de tudo que existe nesse mundo desde que Max Factor inventou o pancake e o gloss.

Aprender a acertar o tom da base não precisa porque a foto tem quer ter impacto. Então, dá-lhe rosto cor de laranja e muito, muuuuuito pigmento no colo porque gente nasceu pra brilhaaaaaar.

E no meio disso tudo, descubro que a tal Sociedade Brasileira de Maquiagem (SBM) foi apresentada em um jantar restrito aos congressistas vip e outros poucos convidados. Mas absolutamente nada foi divulgado para o mercado.

Eu vinha tentando saber que diachos é essa SBM desde que eu vi que ela era apoiadora institucional do The Makeup Experience. Mas tudo que aparecia no Google era Sociedade Brasileira de MATEMÁTICA.

Uma ‘Sociedade Brasileira de Maquiagem’ não é tudo que os maquiadores vêm sonhando há décadas pra proteger o segmento da ‘banalização da profissão’? Então, por que tanto mistério? Vai ser uma sociedade secreta, tipo, uma maçonaria da maquiagem?

‘Ah, mas o lançamento oficial vai ser em maio’. Não importa. Se existe uma ‘instituição’ que pretende reger a profissionalização do mercado, o mercado INTEIRO deve saber ao mesmo tempo, não depois de meses.

Quem é a SBM? Quem são os porta-vozes que vão negociar condições melhores de trabalho com os donos de salões? Quem vai bater na mesa e dizer aos contratantes que uma diária tem até 8 horas e, depois disso, tem que pagar extra pro maquiador?

Quem vai estabelecer um código de ética que penalize o maquiador que usa, vende e divulga ‘réplica original’ de paleta de sombra da Urban Decay e ‘pigmento fracionado MAC’?

Quem vai ensinar os maquiadores sobre boas práticas de higiene pra que ninguém use pincel imundo na cliente? Quem vai educar as novas gerações e contar como e com quem tudo começou?

Ninguém questiona. Só batem palmas, gritam ‘uhuuuu, arrasooouuu’ e esperam por dias melhores.

São as figuras inertes de Escher: aceitam ‘a vida como ela é’ e reclamam no Facebook depois que tudo piora.

Tá tudo meio errado, né, não?

Vocês precisam se importar um pouco mais, refletir um pouco mais, exigir um pouco mais de vocês mesmos e dos outros.

O poder não é de quem contrata, nem das marcas, nem dos que dizem representar os interesses de todo um segmento sem sequer consultá-lo antes.

Eles não são nada sem vocês. Mas, desunidos, vocês, maquiadores, também não são nada.

Quem usa o pincel é quem decide como vai ser o quadro. E já passou da hora de vocês decidirem qual quadro querem pintar.

O The Makeup Experience aconteceu nos dias 31 de março e 01 de abril, em São Paulo. É o maior evento do Brasil dedicado exclusivamente à maquiagem.